Com curadoria de Lilia Schwarcz, a exposição intitulada Novos Barrocos parte do barroco brasileiro, pensando-o como linguagem de fé, poder e invenção, desenvolvida entre os séculos XVII e XVIII no contexto da colonização portuguesa, da escravidão e da expansão católica. Em terras tropicais, o barroco ganhou formas próprias a partir da presença africana no trato com o ouro, o gesso, o estuque e as imagens de devoção, tornando-se uma criação local marcada pela exuberância ornamental, pela teatralidade e pela tensão entre esplendor e violência. Mais do que um estilo artístico, o barroco constituiu uma forma de organizar o mundo e de experimentar o tempo, profundamente inscrita na paisagem, na religiosidade e na cultura visual brasileira. Ao longo da mostra será possível identificar vetores que colocam em diálogo diferentes temporalidades, geografias e suportes, aproximando produções históricas e contemporâneas.
No percurso da mostra, diferentes elementos informam uma abordagem do barroco através de perspectivas múltiplas. Entre os quais, uma paisagem barroca que evoca curvas, dobras, contrastes luminosos e perspectivas dramáticas. Já os santos de devoção elaboram imagens religiosas vindas da tradição católica portuguesa. Os ex-votos, por sua vez, também surgem aqui como elementos importantes, dando notícias dos objetos votivos presentes na cultura visual brasileira desde o período colonial, funcionando como formas de promessa, cura, agradecimento e sobrevivência. Soma-se a isso a presença de oratórios barrocos e de oratórios domésticos. Há, ainda, toda uma gama de obras que dialogam com a dimensão barroca de forma menos direta, mas igualmente pertinente. São tecidos, dobras, costuras, materiais, ornamentos que se relacionam de soslaio com a visualidade barroca.
Ao aproximar obras históricas e contemporâneas, Novos Barrocos propõe pensar o barroco não como herança cristalizada, mas como linguagem ainda viva no Brasil. Presente nas cidades, nos corpos, na religiosidade e na arte, o barroco permanece como forma de sentir o tempo e organizar os afetos, abrigando simultaneamente exuberância e desigualdade, adorno e violência. Produções contemporâneas retomam essa tradição, reinscrevendo nela novas escalas, leituras e materialidades.